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Semana passada, o atual presidente dos Estados Unidos assinou medidas executivas que acabam com o Plano de Ação Climática criado pelo ex-presidente Barack Obama, que previa a redução de emissões de gases estufa. O mundo inteiro recebeu essa notícia com preocupação, já que estamos em um momento crucial de transição pós-Acordo de Paris. Ao mesmo tempo, essa atitude destrutiva do Trump nos convoca a ter uma nova percepção do movimento climático, demonstrando que precisamos de mais cooperação para solucionar essa crise que vivemos. Sem dúvidas, para chegar a uma solução, a juventude mundial deve ter papel protagonista.

Quanto eu tinha por volta de 13 anos, lá em 2007, a minha professora de geografia falou de uns tais de gases poluentes que nós humanos jogamos na atmosfera e o quanto isso estava impactando no processo natural do clima do planeta. Não entendia muito bem o que era aquilo tudo, eu só sabia que:

 

  • Se esses tais “gases de efeito estufa” fazem mal pro meio ambiente, com certeza eles também fazem mal para nós, que vivemos no planeta.

 

Há 10 anos atrás, falar sobre mudança do clima ainda era bem difícil. Muitas pessoas não acreditavam que a gente está mesmo interferindo no sistema climático. Mas o que de fato mudou nesse tempo? Claro que hoje mais pessoas têm uma percepção de que essa crise é efeito do impacto humano, mas os governos fizeram pouco ou quase nada para diminuir ou mitigar (como se fala no vocabulário dos cientistas climáticos) a parcela de interferência humana no clima na última década.

Fui crescendo, passei toda a minha adolescência ligado a movimentos ambientalistas, em movimentos que de alguma forma estavam conectados com questões climáticas. Falar sobre clima, para mim, sempre foi algo muito importante. Sou do recôncavo da Bahia, de uma cidade de 30 mil habitantes chamada Muritiba, e quase nunca fui incentivado pela escola, família, ou amigos a falar sobre isso. Eu só sabia que estávamos cada vez mais impactando o planeta de forma negativa, sem nem pensar os danos que isso causaria para nós ou para as futuras gerações.

Com o passar do tempo, percebi que falar de clima ia muito além do que só falar dos tais gases de efeito estufa. Pra falar de clima eu tinha que falar do que eu visto, do que eu como, do ar que eu respiro, do estilo de vida que eu levo como um todo! Em uma discussão mais aprofundada, percebi que ter um posicionamento contra as mudanças do clima e defender a criação de mecanismos para lidar com os seus impactos me levava a estudar e questionar o sistema capitalista no qual vivemos. Por que ainda existem pessoas que negam as mudanças do clima, como se fosse algo natural?

Encontrei uma explicação muito boa pra tudo isso no livro que recentemente estava lendo “Isso Muda Tudo” da Naomi Klein (This Changes Everything em inglês). Esse livro, que está nas prateleiras de economia das livrarias do mundo todo, debate justamente o quanto o sistema capitalista intensifica as mudanças climáticas. Nele, encontrei uma resposta razoável para o porquê de algumas pessoas ainda negarem que essas mudanças estão acontecendo.

O capitalismo enquanto sistema está intrinsecamente ligado a modos de produção desenfreada, ao consumismo sem limites, à acumulação de riqueza – o que gera mais e mais desigualdades. Às vezes esquecemos que vivemos num mundo em que nossos recursos não são ilimitados… portanto, não podemos pensar no consumo e produção sem limites.

Um estudo de 2013 de Riley Dunlap e do cientista político Peter Jacques “Negação Climática Organizada” (Organized Climate Change Denial, no original em inglês) diz que 73 por cento dos livros que negam as mudanças do clima, a maioria deles publicados nos anos 90, estavam ligados a institutos de direita. Se contamos as publicações próprias (incrivelmente comuns), esse cenário que aumenta para 87 por cento. Números impressionantes, não é?

Em todo o mundo, a direita protecionista nega as mudanças do clima – como estratégia política. Não acredito que as neguem por razões científicas. O fato é que, para solucionar essa loucura que nós mesmos causamos, medidas consideradas socialistas teriam que ser aplicadas. Redistribuição de riquezas, diminuição das desigualdades, até mesmo “decrescimento” econômico teriam que ser pautas de uma nova lógica global, o que é inconcebível para os conservadores.  

Mas voltando ao tópico central deste texto, que é a importância da minha geração estar engajada na solução da crise climática na qual vivemos, eu volto pra 2009. Para mim, esse ano foi o estopim no sentido de me reconhecer enquanto alguém que precisa estar falando sobre clima em qualquer lugar que vou.

Naquele ano estava acontecendo a COP15, convenção de clima da ONU, em que os países de todo o mundo tentavam chegar a um acordo global sobre clima. A COP15 de Copenhague foi um fracasso, os governantes não chegaram a um acordo. Mas por outro lado, o movimento climático mundial ganhou força e espaço. A partir daquele ano eu comecei a me engajar  em organizações que propõem soluções para esse problemão. Comecei a participar da Plant For The Planet, organização da qual, mais tarde, eu me tornei conselheiro global. Participei da RIO+20 e de diversas outras convenções internacionais e nacionais.

Em 2013, conheci a galera do Engajamundo, essa ONG de liderança jovem que foi criada logo depois da RIO+20 com a intenção de aumentar a participação de jovens brasileiros em conferências internacionais da ONU. Com o Engaja comecei a seguir as negociações de clima, as tais das COPs. A primeira conferência de Clima da ONU da qual participei foi a COP19, em Varsóvia. Essa experiência mudou toda a minha história, e também foi um marco na história do Engajamundo. Lá, percebemos que as COPs são espaços de decisões lentas, mas que precisam ser ocupados pelos jovens. Percebemos também que não bastava levarmos posicionamentos para esses espaços se tais posicionamentos representavam os pensamentos de apenas uma parcela das múltiplas juventudes brasileiras. Foi a partir daí que o Engajamundo, como organização, se reconfigurou. A ONG que tinha nascido para aumentar a participação de jovens brasileiros em negociações da ONU percebeu aí que o trabalho de base é tão, ou até mais importante.

Fazer com que o jovem se reconheça como parte da solução dos problemas enfrentamos, primeiramente percebendo seus próprios hábitos e atitudes, chegando à esfera da comunidade até se engajar politicamente é hoje o principal objetivo dessa ONG da qual eu só tenho orgulho. Dizer que sou o maluquinho do clima agora é bem mais fácil… afinal, jovens malucos assim como eu estão espalhados em todo o Brasil, lutando por uma mudança sistêmica que nasce com mudança de comportamento.

Em 2015, participei junto com diversos outros jovens da COP21, em Paris. Foi um momento histórico – pela primeira vez, quase 200 países estavam assinando um acordo global para conter a crise do clima, entre eles os Estados Unidos, Brasil e China. O Acordo de Paris não é um acordo perfeito, mas não posso discutir que é um começo para fazermos uma transição para um novo tipo de economia e quem sabe até de sistema.

Chegamos ao presente e é impossível não falar o quanto é grave que o novo presidente dos Estados Unidos da América seja um negacionista da mudança do clima. E sim, a explicação já mencionada para os negadores climáticos também serve para essa situação. As atitudes de Trump em fortalecer a agenda de combustíveis fósseis e destruir o programa de combate das mudanças climáticas do Obama é no mínimo burra. Se os Estados Unidos sair do Acordo de Paris, assim como Trump prometeu, não será o fim. Mas será importantíssimo nos fortalecermos enquanto cidadãos mundiais que pautam e criam mecanismos para alcançarmos justiça climática.

Por fim, não quero romantizar o ativismo pelo clima, e sei o quanto é difícil, por exemplo, para um jovem que está em situação de vulnerabilidade se envolver em qualquer movimento social. Precisamos ter consciência de nossos privilégios – poder lutar, independentemente da causa, não deixa de ser um privilégio. Porém quero enfatizar que não precisamos separar as nossas lutas; falar de clima é também falar de gênero, de refugiados, de desigualdades, de tudo! É necessário perceber que somos a última geração que pode fazer algo para diminuir os impactos climáticos que nós mesmos causamos! É preciso reconhecer que somos a primeira geração que está totalmente ligada com a possibilidade de existência ou não das futuras gerações. A participação de jovens de todo o mundo em ações que vão do local ao internacional nunca foi tão necessária. Por isso estamos presentes, e estaremos mais e mais!

 

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