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Já pensou ter que andar pelas ruas da sua cidade com uma identificação especificando em quais lugares você pode circular??

Parece coisa de louco, não? Mas não, não é! Na verdade isso não passou de coisa de alguns brancos racistas, porque sim, isso já aconteceu! Não só aconteceu como também foi pior ainda do que parece: há 57 anos atrás, em Joanesburgo, capital sul-africana, aconteceu mais um dos tantos massacres realizados ao longo da história contra o povo negro. Foi durante uma manifestação pacífica, no bairro de Shaperville, que a polícia atirou nos manifestantes que protestavam contra essa loucura racista, chamada de Lei do Passe, um dos principais elementos do apartheid (aquele regime de segregação racial da África do Sul, sabe?). Essa lei obrigava a população negra a portar essa identificação, e como se tudo já não estivesse errado, a polícia ainda tirou mais 69 vidas e feriu outras 186. Pesado, né?

Se engana muuuuito quem pensa que hoje em dia já estamos livres desse problema. A segregação racial ainda existe e, no Brasil, isso se dá de forma bem forte. “Nossa, mas se é tão ruim assim, por que eu nunca soube disso??” Bom, taí uma dúvida bem comum, e que reflete muito o que grande parte da população acredita. Acontece que, assim como no passado, a segregação racial e toda forma de racismo acontece de modo naturalizado, parecendo que está tudo bem quando na verdade não está nem um pouco. O que aconteceu lá na África do Sul era super normal para as cabeças da época, e comparando com a situação atual do Brasil, vem cá me dizer uma coisa: você nunca se questionou o porque a maioria dos moradores das favelas (por volta de 67%) são negros? Negros representam 55% da população brasileira, mas ainda assim, não é estranho que quando uns garotos negros estão se aproximando na rua rola um certo medinho? Talvez até role trocar de calçada, não? Pois é, esse “choque de raças”, onde em certo momento uma pessoa é tratada de forma diferente na rua por conta da cor da pele, não é só coisa do passado. Acontece hoje, no nosso dia a dia, e inclusive leva a morte de vários jovens negros todo dia. Ou melhor, todo dia não, e sim a cada 23 minutos.

Parece até que em pleno século 21 nem todo mundo pode andar tranquilamente pela rua sem correr risco de morte, não? Então pera, não tem uma separação acontecendo aqui?? Eu não sei você, mas eu acho que ter quase todo um povo vivendo em um mesmo lugar enquanto quase todo um outro povo vive num outro lugar completamente diferente e quando esses se encontram geram certos conflitos, é bem chato, não? Não, na verdade chato não é. Isso é segregação, de uma forma diferente do apartheid mas com o mesmíssimo resultado. O nome disso é racismo!

O racismo no Brasil aparece nas desigualdades sociais, quando a gente para pra observar fatos como esse, em que a maioria do povo negro se encontra em condições desiguais em comparação a população branca. Diminuir essas desigualdades é o que propõem o 10º Objetivo de Desenvolvimento Sustentável (ODS), que tem como meta, até 2030, “empoderar e promover a inclusão social, econômica e política de todos, independentemente da idade, gênero, deficiência, raça, etnia, origem, religião, condição econômica ou outra.” Então sim, o que a gente tá falando aqui é o que a própria ONU reconhece, que algumas das desigualdades sociais acontecem baseadas na cor da pele da população. E além disso, vale mencionar que a discriminação racial significa “qualquer distinção, exclusão, restrição ou preferência baseada na raça, cor, ascendência, origem étnica ou nacional com a finalidade ou o efeito de impedir ou dificultar o reconhecimento e exercício, em bases de igualdade, aos direitos humanos e liberdades fundamentais nos campos político, econômico, social, cultural ou qualquer outra área da vida pública”. Em outras palavras, outros grupos étnico-raciais também sofrem diferentes formas de racismo.

Se eu te perguntar qual outro grupo seria esse, qual você responderia? “Os índios, é claro”, como muitos dizem. Mas o racismo contra os povos indígenas já começa nessa resposta: esse termo, índio, por si só já é bem preconceituoso. Foram os europeus que, quando chegaram à América, por ser um continente desconhecido para eles e esses acreditarem estar na Índia, resolveram nomear assim os povos ameríndios. Mesmo hoje, com todo o conhecimento que temos, as pessoas insistem em continuar usando essa palavra que não, não é nem um pouco legal.

Além disso, atualmente os indígenas vivem com vários estereótipos que outras pessoas criaram baseados no que cada um acha que é necessário para ser indígena. E adivinha: esses estereótipos não são reais! “Então quer dizer que índio bebe Coca-Cola? Índio tem celular? Índio fede! Índio tem muito direito! Índio é isso ou aquilo”. Sim, indígenas bebem coca-cola e usam celular. E não, não possuem muitos direitos, afinal, você realmente acha que ser massacrado pelos europeus e seus descendentes desde a “descoberta” (leia-se invasão) do Brasil, sendo até hoje invisibilizados pelas políticas públicas nacionais é de alguma forma um direito? Claro que não!

Asiáticos e seus descendentes, por exemplo, também são outro grupo discriminado socialmente. Esses não passaram pela escravidão ou um longo e histórico processo racista como os negros e indígenas. Nunca são expulsos de lojas por acharem que esses não têm poder de compra assim como não são assassinados por serem asiáticos e isso implicar alguma suspeita. Mas e quando desconhecidos ficam a uma distância perturbadora para ver seus olhos exóticos? E quando desconhecidos vem rindo e gritando palavras aleatórias em japonês e/ou chinês? E quando falam que japonês é tudo igual (japonês significando qualquer asiático)? Quando vem falar como japonesas são feias, assim, do nada? Quando caras ficam te seguindo na internet e fisicamente porque querem namorar japonesas, por todas serem meigas e delicadas? Quando vem perguntar sobre sua genitália? Quando falam para você voltar para o seu país? E quando, convenientemente, esse povo é entendido como branca (“Nada a ver essa revolta de branco interpretar japonês. Você é quase branca!”)?

Pois é, o sentimento que rola com tudo isso é que os amarelos ainda não são vistos como brasileiros. E como são minoria no Brasil (cerca de 2% da população – mais de 2 milhões de pessoas), talvez isso continue por muitos anos ou nunca acabe.

Mas na verdade, estamos aqui pra colocar um fim nisso. Custe o que custar! E pra isso vamos nos usar de todos os meios possíveis para pressionar os governos a tomarem medidas severas contra a discriminação racial. Os ODS, por exemplo, são os objetivos que vão guiar as futuras políticas públicas nacionais até 2030, e para além do objetivo 10, que vai reduzir as desigualdades sociais, nós sabemos que a população negra e indígena, que passam por um processo racista bem profundo, será muito beneficiada com o cumprimento de todos os outros objetivos. Assim, justamente pela agenda ter sido adotada por uma maioria de homens brancos e ricos que não passam pelas mesmas situações relatadas no texto, que nós estaremos de olho e pressionando pra que cada uma dessas metas não se torne mais um acordo internacional que ficou bonito só no papel. Somos nós que sofremos e somos nós, jovens, que não vamos deixar tudo isso passar em branco.

Texto escrito por Alana Manchineri, Midori Motoki, Emerson Luã

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