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 As negociações durante a COP20 aconteceram em torno de basicamente 3 temas: mitigação (reduzir os efeitos das mudanças climáticas), adaptação (trabalhar em medidas para conter o que já está acontecendo) e financiamento (quem vai pagar por tudo isso). Na nossa Engajadelegação, eu fiquei responsável por seguir as discussões sobre financiamento, e confesso que fiquei meio perdida no começo pela complexidade do assunto, mas depois que você entra na loucura da coisa, acaba ficando mais fácil. Então é isso o que vim fazer aqui: contar o que raios aconteceu em relação ao dindim na COP.

Estabelecido na COP16 de Cancún em 2010, o Fundo Verde para o Clima (GCF na sigla em inglês) foi um dos grandes assuntos nas negociações. Logo antes do início da COP em Lima, Estados Unidos e China fizeram um acordo histórico e prometeram contribuir com mais de 3 bilhões de dólares para o fundo. A expectativa então era que outros países também fizessem suas pledges (promessas de doações com prazo para serem efetivamente desembolsadas) durante a conferência. O que aconteceu. Vários países anunciaram seus comprometimentos (inclusive países em desenvolvimento, como Peru, México, Indonésia e Panamá que não tem a obrigatoriedade de doar recursos) e o valor total destinado ao GCF ultrapassou a estimativa inicial de 10 bilhões de dólares por ano. Bacana, né?

Mas calma aí que nem tudo são flores: O objetivo do GCF é ter um total de 100 bilhões de dólares até 2020 e daí em diante 100 bi por ano para financiar projetos de adaptação e mitigação nos países em desenvolvimento. 27 países já deram suas contribuições e só agora alcançamos 10% da meta, e os prazos para efetivamente doar essa quantia variam de 4 a 9 anos. Além disso, relatórios do IPCC (Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas, órgão científico da ONU) mostram que serão necessário trilhões, e não bilhões de dólares para conter os efeitos das mudanças climáticas nos próximos anos. E tem mais: na COP15 em Copenhagen, países em desenvolvimento prometeram doar 100 bilhões para o mesmo fim e, até hoje, menos de 3% desse dinheiro foi dado. E agora com o GCF essa promessa parece ter sido totalmente esquecida.

Durante as negociações ficou muito claro o apoio tanto dos países quanto do secretariado do GCF ao aspecto não-governamental do fundo, ou seja, ele pode tanto receber doações ou apoiar projetos do setor privado. O argumento a favor usado muitas vezes foi que somente com dinheiro público não se chegaria à marca dos 100 bi, o que me levou a perguntar: será que não? Dinheiro os países tem e de sobra. Os subsídios governamentais para extração e comercialização de combustíveis fósseis ultrapassam a meta do GCF fácil, é só uma questão de prioridade. Também fiquei com uma super pulga atrás da orelha o tempo todo: qual o mecanismo de monitoramento que impede que empresas do mal (leia-se: empresas que efetivamente contribuem para o aumento dos efeitos das mudanças climáticas) usem o GCF como barganha? As empresas podem livremente doar grana e continuar poluindo? Eu sai perguntando isso loucamente para todos os especialistas que encontrava e em todos os eventos que participava mas ninguém conseguiu me dar uma resposta satisfatória. Acho que essa dúvida eu vou ter que carregar até a COP que vem.

E onde entra o Brasil nessa briga toda? Ele não entra.

Em entrevista coletiva lá na COP, o chefe da delegação brasileira, Embaixador José Antônio Marcondes, deixou bem claro que o Brasil não tem intenção de fazer pledges para o GCF. Tecnicamente, o país não é obrigado, já que ainda é emergente e não tem a responsabilidade histórica dos países desenvolvidos. Mas considerando que somos o 4˚ maior emissor de CO2 do mundo, eu esperava um comprometimento maior. O Embaixador disse, porém, que o Brasil está mais interessado em fortalecer o fundo de cooperação sul-sul firmado com os países do BASIC (Brasil, África do Sul, Índia e China). Só que em entrevista a um site chinês alguns dias antes, um dos delegados oficiais do Brasil, Raphael Azeredo, disse que não sabia sobre esse fundo e gostaria de aprender como ele funciona. Então o Brasil conhece o fundo ou não? Vai botar a mão no bolso ou vai ficar disfarçando? A China já doou para o fundo e prometeu dobrar o valor no ano que vem. E aí, Brasil, qual vai ser?

Cheguei nessa COP cheia de dúvidas quanto ao financiamento desse processo todo. Consegui sanar algumas e saí de lá com muitas mais. Quando o assunto é botar o dinheiro na mesa, o buraco é mais embaixo e os países fazem parecer tudo lindo e maravilhoso quando na verdade muito pouco está sendo feito. Vou continuar infernizando a vida de um monte de gente até conseguir entender onde a grana desses fundos será aplicada. Parece que ainda temos um longo caminho pela frente rumo à COP21 em Paris.

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